Desde há séculos que é conhecida a máxima de Hipócrates: ?Que o
teu alimento seja o teu medicamento.? Nós somos também o resultado
daquilo que comemos. Muitas das chamadas doenças modernas surgem
associadas a erros e excessos alimentares. fáceis de detectar mas
difíceis de corrigir, tal é a oferta e o apelo ao consumo! Francisco
Varatojo, autor do Pequeno Livro da Saúde Natural, director do lnstituto
Macrobiótico de Portugal. consultor e professor no Instituto Kushi dos
Estados Unidos, explica?nos por que razão a carne e os lacticínios não
são os melhores alimentos. E como uma dieta tendencialmente vegetariana
pode contribuir para uma melhor saúde

Os
portugueses comem mal?
FV: Em relação a outros países ocidentais, os portugueses
comem talvez um pouco melhor: come-se menos produtos animais, menos ?fast-food?
e muitas famílias ainda consomem regularmente vegetais, cereais e
frutos. No entanto, os hábitos alimentares estão a deteriorar-se muito
rapidamente, em particular nos meios urbanos. Começa a comer-se uma
quantidade enorme de produtos animais, gordura saturada, margarinas,
sal, açúcar, com o custo consequente na saúde e bem estar. (Será que
podia dar aqui uma achega quanto aos erros/excessos que se cometem...
gorduras, sal...)
Até que ponto o consumo regular de carne pode ser prejudicial à
saúde?
FV: Um número cada vez maior de estudos liga o consumo da
carne a determinados tipos de cancro como o cancro no cólon ou o cancro
na próstata e o consumo de carne está indubitavelmente ligado às doenças
cardiovasculares. Na realidade, é perfeitamente possível vivermos sem
comer carne e acredito ser a melhor opção.
Algumas doenças podem ser evitadas ou mesmo tratadas através de
uma correcta orientação alimentar? De que forma?
FV: Cada vez mais a comunidade científica através de estudos
epidemiológicos chega à conclusão de que a alimentação está por detrás
de um grande número de doenças: doenças cardiovasculares, hipertensão,
obesidade, diabetes, cancro, esclerose múltipla, etc. Pessoalmente, acho
que não existe nenhuma doença que não esteja ligada aos hábitos
alimentares e estilo de vida e consequentemente todas beneficiam
grandemente e nalguns casos recuperam completamente quando se fazem
alterações na alimentação.
Mas é mais fácil as pessoas comprarem medicamentos do que alterarem
hábitos enraizados. Não é? Por vezes nem sequer relacionamos certas
doenças com aquilo que comemos...
É realmente mais fácil tomar medicamentos do que alterar hábitos e
quem o queira fazer está no seu pleno direito. No entanto, os
medicamentos têm efeitos secundários (as doenças iatrogénicas são a 3ª
causa de morte nos Estados Unidos), são caros e não resolvem
verdadeiramente os problemas, apenas aliviam os sintomas. Evidentemente
que existem situações onde é necessário tomar medicamentos, mas na minha
opinião e observação a maioria dos problemas melhora quando se altera a
alimentação e o estilo de vida, mesmo que se decida ou seja necessário
ingerir simultaneamente medicação.
Posso honestamente dizer que em todos os casos que vi até hoje, e já
vi milhares, as pessoas que fizeram alterações conscientes, sentidas e
apropriadas melhoraram praticamente todas. É no entanto importante, que
cada um se responsabilize pela sua saúde, tenha um estado de espírito
positivo em relação à vida e siga uma alimentação correcta.
(Recordo-me de naquele encontro em Cascais uma Sr.ª vir ter comigo no
fim da sessão com imensa pena de não tido oportunidade de dar o seu
testemunho, que sofrendo de lúpus beneficiou muito como a mudança
alimentar... Será que podia falar um bocadinho da sua experiência como
consultor alimentar, exemplificando, se achar conveniente?)
Há a ideia generalizada de que não podemos deixar de comer carne e
peixe por causa das proteínas e do ferro. Isso faz algum sentido?
FV: Não, não faz qualquer sentido; é perfeitamente possível
obter todas as proteínas e ferro necessários sem consumirmos carne ou
peixe e sem tampouco sermos especialistas em nutrição. Duma forma geral,
com uma alimentação predominantemente vegetariana, mas variada obtém-se
proteínas e ferro em quantidades mais do que suficientes.
Falando de outro tema ainda mais polémico. Tem alertado que o
leite e os lacticínios podem não ser tão saudáveis como se pensa.
Porquê?
FV: Em primeiro lugar, porque o leite de vaca é um alimento
naturalmente concebido para nutrir um bezerro, não um ser humano. Por
estranho que pareça, somos os únicos animais que após desmamados
continuamos a beber leite, ainda por cima de uma outra espécie animal.
Também, uma fatia muito grande da população mundial é intolerante à
lactose (açúcar do leite), o leite e produtos lácteos têm
predominantemente gordura saturada e cada vez existem mais estudos que
ligam os lacticínios a muitas das doenças modernas.
Afinal, beber 2 copos de leite por dia pode não contribuir para a
prevenção de doenças como a osteoporose?
FV: Na realidade, muitos estudos mostram exactamente o
contrário. Por exemplo, o ?Nurses Health Study?, um dos maiores estudos
epidemiológicos realizados até hoje pela Universidade de Harvard nos
Estados Unidos demonstrou o seguinte: em 90.000 enfermeiras cujos
hábitos alimentares foram monitorizados durante bastantes anos, aquelas
que beberam mais leite e lacticínios foram as que desenvolveram não só
mais osteoporose, mas também mais cancro nos ovários.
É certo que existem alimentos de origem vegetal ricos em cálcio,
mas o nosso organismo consegue absorver bem o cálcio presente nesses
alimentos?
FV: Alimentos como os vegetais verdes de rama, algas, peixe,
oleaginosas têm quantidades consideráveis de cálcio, nalguns casos,
iguais ou superiores aos lacticínios, cálcio esse que é bem absorvido.
No entanto, o mais importante, não parece ser apenas a ingestão de
cálcio mas sim a sua fixação. Para que a absorção e fixação sejam
adequadas os factores fundamentais são: actividade física, presença
suficiente de estrogéneos e testosterona, vitamina D, entre outros.
Mas há quem insista que certas substâncias presentes nos vegetais
e cereais (como o ácido fítico) podem interferir na absorção do cálcio.
Por isso recomendam o leite como sendo a melhor fonte...
FV: Existem evidentemente pontos de vista diferentes, mas os
mais recentes estudos parecem não estar muito de acordo com os
argumentos utilizados pelos proponentes dos lacticínios. Nestes estudos,
o cálcio proveniente de produtos de origem vegetal parece ser mais
facilmente absorvido. O ácido fítico (presente nos cereais integrais),
pode teoricamente prejudicar a absorção de minerais e oligoelementos
(não tanto o cálcio, mas mais o zinco ou o magnésio), mas isso pode
acontecer quando se ingere uma quantidade muito grande de farinhas
integrais cozinhadas no forno (pão, bolachas duras, biscoitos, etc), em
detrimento de cereais integrais em grão como ao arroz, cevada, millet,
etc. Também, os cereais integrais como o arroz, quando demolhados antes
de cozinhar ?desdobram? o ácido fítico e este deixa de ser um problema.
Sabe-se também que em consumidores regulares de alimentos integrais, o
organismo se adapta a um maior consumo de fibra e aí a absorção de
minerais é adequada.
Há um apelo enorme ao consumo de alimentos processados, refinados,
açucarados... que estão à nossa disposição por todo o lado. Estes
alimentos devem ser evitados, em especial pelas crianças?
FV: Sim, sem dúvida alguma, estes alimentos não trazem
quaisquer benefícios a ninguém, excepto às companhias que os produzem. A
enorme quantidade de açúcar e alimentos quimicalizados que se consomem
actualmente, particularmente as crianças, contribuem decisivamente para
muitas das doenças auto-imunes, modernas como asma, alergias, lupus,
artrite reumatóide, etc.(pode exemplificar? asma? alergias?), problemas
comportamentais e muitos outros.
O açúcar causa dependência? Que efeitos nocivos podem ter para
além da famosa cárie dentária?
FV: Sim, o açúcar causa dependência, e para a maioria das
pessoas é extremamente difícil deixar de comer açúcar. Para além da
famosa cárie dentária, o açúcar contribui para a obesidade,
desmineraliza enormemente, pode aumentar os níveis de gordura no sangue,
enfraquece seriamente o sistema nervoso sendo uma das causas principais
de falta de memória? A lista é enorme.
Os seus filhos seguem uma alimentação macrobiótica? Alguma vez
«protestaram» por não comerem o que os outros meninos comiam...
FV: Duma forma geral, os meus 4 filhos seguem uma alimentação
macrobiótica. Digo duma forma geral, porque em situações sociais podem
comer açúcar, lacticínios, etc. No entanto, nunca se queixaram por a
alimentação em casa ser diferente e compreendem perfeitamente o efeito
da alimentação na saúde.
Quem não consome alimentos de origem animal, corre o risco de ter
carências de alguns nutrientes, nomeadamente de vitamina B12?
FV: Na realidade sim, algumas pessoas (não todas) podem ter
deficiência de B12 se nunca comerem produtos animais. Para quem queira
ser completamente vegetariano é aconselhável fazer uma análise clínica
para saber como estão os níveis de vit. B12; se baixos, tomar um
suplemento ou levedura de cerveja, ou comer pequena quantidade de peixe.
Acha que as entidades governamentais deviam ter um papel mais
activo, no que se refere a recomendações alimentares?
FV: Evidentemente que sim, a saúde pública ganhava enormemente
com isso e pouparíamos uma quantidade astronómica de dinheiro ao
Ministério da Saúde e à Segurança Social.
As pessoas ficam sem saber o que comer com tantas informações
contraditórias, ao longo do tempo...
FV: É realmente verdade. Nos tempos modernos, praticamente
todas as teorias, por mais opostas e contraditórias que sejam parecem
ter fundamento científico, o que deixa as pessoas muito confusas.
O meu conselho a esse respeito é o seguinte: estudem a forma como a
Humanidade come há milhares e milhares de anos, não apenas os últimos 50
ou 100 anos. Sem excepção, chegaremos à conclusão de que temos
subsistido e evoluído como espécie com uma alimentação baseada em
cereais, vegetais, sementes, frutos, e também com o consumo de alguns
produtos animais, conforme as culturas.
É também importante usarmos bom senso quando escolhemos o que comer e
mantermo-nos informados para podermos separar o trigo do joio.

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