Depois
da doença das ?vacas loucas?, dos frangos com nitrofuranos temos agora
os casos de ?scrapie? nos ovinos e caprinos. Num mundo sem carne, o que
deveríamos comer?
"As últimas notícias sobre os problemas com a carne são apenas a ponta
do icebergue?, diz Francisco Varatojo. O director do Instituto
Macrobiótico de Portugal (IMP) não esconde a preocupação face ao actual
panorama alimentar.
Cita um artigo recente do jornal britânico ?The Guardian?, no qual
são revelados dados assustadores sobre a qualidade dos lacticínios. ?A
maioria das pessoas não tem a mínima ideia do que se passa na indústria
alimentar, daquilo que acontece até um produto chegar ao prato?.
Crítico em relação à alimentação de grande parte da população,
Varatojo tem razões para acreditar que vivemos num clima de medo.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, o primeiro problema do mundo
ocidental é a obesidade, associada às mais variadas doenças, entre elas
o cancro. ?Hoje ingerimos produtos animais em excesso, incluindo outros
que nem sequer existiam, como as pizzas, os ?MacDonalds?, as coca-colas?.
E se no plano pessoal a ?fast food? não o afecta, no geral sente receio
quanto ao futuro. ?Se os animais continuarem a ser utilizados apenas
para chegarem à mesa, vivendo em condições precárias e carregados de
antibióticos, isto vai ser um descalabro em termos de saúde pública,
ambiente e economia.?
A nutricionista Cláudia Russo concorda com a visão pouco simpática da
evolução gastronómica. E exemplifica: ?Tenho pacientes que sofrem de
excesso de gordura, que fazem uma alimentação à base de carne e que não
respeitam a diversidade da roda alimentar. Os erros com a má alimentação
são cada vez mais frequentes.?
Existem alternativas para quem come carne: na Biocoop, as peças
vendidas são de animais que não tem químicos.
ALTERNATIVAS SAUDÁVEIS
Francisco
Varatojo defende uma dieta saudável. A ?sua? macrobiótica, assente em
cereais integrais, vegetais, leguminosas e alguns (poucos) produtos
animais, pode ser a solução. Até porque, salienta, ?mudar para este tipo
de alimentação é fácil, desde que haja motivação?.
A maior dificuldade será conseguir alterar os hábitos sociais, entre
eles as idas aos restaurantes. Depois, há que vencer os mitos. ?O maior
deles é dizer-se que a comida não tem paladar. Não é verdade. Se for bem
preparada, o sabor é extraordinário, se for mal é horrível. Não existe
meio termo.?
Carla Russo não chega ao ponto de recomendar uma dieta dessa
natureza. Primeiro, porque para muita gente continua a ser difícil mudar
de um sistema que tem a carne como base para outro em que ela quase não
existe. Depois, porque a qualidade de vida pode melhorar sem recurso a
algo ?tão radical?. A escolha de alimentos variados, a criação de uma
rotina com três refeições diárias e hábitos como mastigar bem os
alimentos e não comer antes de dormir, podem, segundo a especialista,
ajudar a melhorar a qualidade de vida sem alterações profundas do
quotidiano.
NO PAIS DOS PESTICIDAS
Ângelo Rocha, 42 anos. há 11 gerente da
Biocoop. defende
com unhas e dentes o consumo de produtos fertilizados sem recurso aos
químicos. Por uma questão de bom senso, adianta, todas as pessoas deviam
colocá-los em primeiro lugar na sua alimentação. ?A agricultura
biológica será uma necessidade dentro de pouco tempo. A viragem é
irreversível, consequência da cada vez maior desconfiança dos
consumidores em relação aos produtos que lhes chegam à mesa.? No
entender do dirigente da cooperativa, que além de fazer revenda abastece
algumas lojas e restaurantes da Grande Lisboa, os recentes problemas com
os vários tipos de carne são apenas o primeiro sinal dessa necessidade
de mudança.
Num futuro próximo, a agricultura biológica irá mostrar os erros da
agricultura química intensiva, na quail o paladar sai sempre a perder.
?Os alimentos que aqui vendemos são mais gostosos, têm aquele sabor do
passado, que muitas vezes as pessoas recordam com nostalgia.? Entre os
produtos em venda, Ângelo Rocha destaca a carne biológica, proveniente
de animais alimentados de forma natural, e que, mesmo em termos
veterinários são tratados com o mínimo recurso a fármacos. ?Isso
torna-os muito mais saudáveis.?
Apesar do aumento da procura, os hábitos portugueses continuam a
mudar de forma lenta e estão longe de países com 20 anos de cultura
biológica.
Alemanha, Suécia, Dinamarca e França aderiram em força à ideia. Por
cá, a resistência tem tido efeitos negativos. ?Somos o paraíso dos
pesticidas. Neste aspecto, estamos na cauda da Europa. Até Marrocos já
nos ultrapassou.?
PROTEÍNAS VEGETAIS
TOFU - Feito a partir da soja, é muitas vezes incluído como
prato principal na ementa macrobiótica. Tem textura e paladar suaves,
revelando-se rico em proteínas, sais minerais e vitaminas.
SEITAN - Possui uma quantidade elevada de proteínas e é também
conhecido como ?carne vegetal?. Tem um sabor suave e uma textura
esponjosa, que no início provoca estranheza. Concebido através do gérmen
de trigo, faz parte dos mais diversos pratos vegetarianos e
macrobióticos.
SOJA - Da família das leguminosas (feijão), pode ser consumida
sob a forma de leite, queijo, molho ou tofu. Rica em proteínas e
antioxidantes, previne as doenças do coração e do aparelho circulatório.
LEGUMINOSAS - Fonte de proteínas, fibras e minerais, integram
todas as dietas vegetarianas. Oferecem um leque muito vasto de opções,
que vão desde as lentilhas, às favas, ao feijão e ao grão, entre outros.

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