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Neste artigo tentarei elucidar os leitores sobre o que
são a alimentação e o estilo de vida macrobióticos, uma vez que me
parece haver uma certa confusão por parte do público em geral sobre que
é e o que não é este modo de vida. Leio com alguma frequência, críticas
à prática alimentar macrobiótica, que não têm muitas das vezes qualquer
fundamento dum ponto de vista nutricional, por mero desconhecimento
técnico por parte de quem escreve a crítica.
Existe também a ideia de que a Macrobiótica e o vegetarianismo se
regem pelos mesmos princípios, o que também não é verdade - o regime
macrobiótico sendo predominantemente de origem vegetal, não é
necessariamente um regime vegetariano; o uso de produtos animais
(preferivelmente peixe) é aceitável e nalguns casos necessário
dependente de factores como o clima, grau de actividade física,
antecedentes biológicos e outros.
A Macrobiótica não é exclusivamente uma dieta, um regime, mas sim um
estilo de vida que tem como objectivo último ajudar-nos a desenvolver o
nosso potencial humano, ao seguirmos as leis da natureza dum ponto de
vista biológico (através da alimentação), ecológico (fazendo escolhas
diárias que contribuem para uma melhor qualidade de vida ambiental),
social e espiritual (tratando os outros com amor e compaixão e assumindo
a nossa responsabilidade como um pequeno elo numa vasta cadeia de seres
e fenómenos).
A origem da palavra é grega, "macro" - grande - e "bio" - vida e não
significa apenas "grande vida" mas também a capacidade de vivermos a
vida duma forma grandiosa e magnífica. A esse nível, a alimentação é
importante, essencial, porque nos dá a base biológica, a saúde para
gozarmos a vida em todo o seu esplendor e para termos sensibilidade para
com o meio que nos rodeia. Nós somos literalmente o que comemos, os
alimentos criam o nosso sangue que vai nutrir as células, os órgãos, o
cérebro. Sem alimentos a vida não é possível.
A palavra Macrobiótica foi utilizada por filósofos gregos como
Hipócrates e na era moderna primeiro no séc. XVIII por um professor de
medicina alemão, médico pessoal de Goethe, chamado Christoph Von
Hufeland que escreveu o livro "Macrobiótica, ou a Arte de prolongar a
Vida" onde prescreveu recomendações muito semelhantes às da
"macrobiótica moderna". Nos finais do séc. XIX, um médico do exército
japonês, Sagen Ishisuka, que se curou duma doença de rins intratável
pela medicina moderna, adoptando um regime alimentar baseado em cereais
integrais e vegetais, fundou a primeira organização macrobiótica
denominada na altura Sokuiokai e foi extremamente famoso no Japão nos
finais do séc. XIX e início do séc. XX.
Para Ishizuka todos os problemas de saúde e sociais tinham como
origem uma má nutrição, particularmente um desequilíbrio entre sódio e
potássio nos alimentos e, para ele, todos os problemas podiam ser
corrigidos adoptando uma prática alimentar de acordo com a constituição
biológica humana, em especial a utilização de cereais integrais e
vegetais como alimentos principais.
O trabalho de Ishizuka foi continuado e desenvolvido por George
Ohsawa que nos anos 30 trouxe os seus ensinamentos para a Europa, em
especial para a França e Bélgica; Ohsawa escreveu dezenas de livros e
foi relativamente conhecido em França, mas duma forma geral, o que se
conhece mais da abordagem de George Ohsawa é uma prática alimentar
macrobiótica extremamente restritiva que não se adapta bem (na minha
opinião) à vida moderna. Isto, apesar de Ohsawa ter uma concepção
extremamente alargada do regime macrobiótico, recomendando desde dietas
muito simples, monodietas, até regimes com uma quantidade aceitável de
produtos animais e pequena quantidade de bebidas alcoólicas.
Ohsawa prescrevia segundo a condição individual - para ele, praticar
macrobiótica era comer segundo as necessidades em constante mutação de
cada um - para algumas pessoas jejuar é a terapia, para outros comer
bastante variedade e divertir-se é a solução mais indicada. No entanto,
na prática diária, os cereais integrais e os vegetais continuam a ser os
alimentos mais adaptados à espécie humana, e consequentemente aqueles
que mais ajudam a criar e a manter a saúde.
Os ensinamentos de George Ohsawa foram na geração seguinte
disseminados pelos seus discípulos orientais particularmente Michio e
Aveline Kushi, Herman e Cornelia Aihara, Tomio e Bernardete Kikuchi,
Shizuko Yamamoto, Clim Yoshimi, entre outros e na geração actual
especialmente por estudiosos europeus e americanos. Michio Kushi,
residente nos Estados Unidos desenvolveu um modelo alimentar mais
simples de compreender e mais adaptado à vida moderna denominado
"Alimentação Macrobiótica Padrão" (Standard Macrobiotic Diet), o modelo
alimentar mais utilizado pela maioria dos praticantes macrobióticos
modernos.
Nas linhas que me restam para concluir este artigo, vou tentar
identificar aqueles que me aparecem ser os aspectos mais importantes da
alimentação e estilo de vida macrobióticos.
Devemos comer segundo as nossas características biológicas - o Homem
é por natureza um ser designado para comer maioritariamente alimentos de
origem vegetal, em particular cereais e vegetais, apesar de ter a
capacidade para ingerir de tudo.
A alimentação deve reflectir o enquadramento geográfico e climático
pelo se deve adaptar aos diferentes climas e habitats; deve também ser
tradicional, ou seja devemos escolher um estilo alimentar que venha a
ser seguido há séculos (os cereais, os vegetais e as leguminosas foram a
base alimentar da espécie humana durante milhares de anos e só
recentemente esses hábitos foram alterados).
A noção de bipolaridade, ou a teoria de "yin" e "yang" é uma parte
essencial deste estilo de vida - a ideia de que todos os fenómenos,
alimentos incluídos, têm qualidades energéticas, metafísicas e de que a
harmonia relativa é conseguida quando "equilibramos" estes dois pólos,
yin e yang, nas nossas vidas.
Temos o livre arbítrio para escolhermos comer e viver como quisermos,
mas há uma responsabilidade inerente a cada uma das escolhas que
fazemos; não existem alimentos proibidos mas existe um critério a partir
do qual podemos escolher duma forma mais responsável e consciente.
Essencialmente, na prática da Macrobiótica, a saúde e a felicidade
começam em cada um de nós, e as nossas vidas são em grande parte, um
reflexo das nossas escolhas e prioridades.
Espero que com este artigo passe a ter uma ideia mais alargada e mais
acertada do que significa praticar macrobiótica; oportunamente
escreverei sobre os aspectos mais técnicos e nutricionais desta prática
alimentar.

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