COMUNICAÇÃO SOCIAL

Alguns artigos publicados em diversos órgãos de Comunicação Social escrita.


"É perfeitamente possível viver sem comer carne"

entrevista com Francisco Varatojo

artigo publicado no Notícias Magazine em 31 de Agosto de 2003 (Texto de Gabriela Oliveira)

 
 

Desde há séculos que é conhecida a máxima de Hipócrates: ?Que o teu alimento seja o teu medicamento.? Nós somos também o resultado daquilo que comemos. Muitas das chamadas doenças modernas surgem associadas a erros e excessos alimentares. fáceis de detectar mas difíceis de corrigir, tal é a oferta e o apelo ao consumo! Francisco Varatojo, autor do Pequeno Livro da Saúde Natural, director do lnstituto Macrobiótico de Portugal. consultor e professor no Instituto Kushi dos Estados Unidos, explica?nos por que razão a carne e os lacticínios não são os melhores alimentos. E como uma dieta tendencialmente vegetariana pode contribuir para uma melhor saúde
 

Os portugueses comem mal?

FV: Em relação a outros países ocidentais, os portugueses comem talvez um pouco melhor: come-se menos produtos animais, menos ?fast-food? e muitas famílias ainda consomem regularmente vegetais, cereais e frutos. No entanto, os hábitos alimentares estão a deteriorar-se muito rapidamente, em particular nos meios urbanos. Começa a comer-se uma quantidade enorme de produtos animais, gordura saturada, margarinas, sal, açúcar, com o custo consequente na saúde e bem estar. (Será que podia dar aqui uma achega quanto aos erros/excessos que se cometem... gorduras, sal...)

 

Até que ponto o consumo regular de carne pode ser prejudicial à saúde?

FV: Um número cada vez maior de estudos liga o consumo da carne a determinados tipos de cancro como o cancro no cólon ou o cancro na próstata e o consumo de carne está indubitavelmente ligado às doenças cardiovasculares. Na realidade, é perfeitamente possível vivermos sem comer carne e acredito ser a melhor opção.

 

Algumas doenças podem ser evitadas ou mesmo tratadas através de uma correcta orientação alimentar? De que forma?

FV: Cada vez mais a comunidade científica através de estudos epidemiológicos chega à conclusão de que a alimentação está por detrás de um grande número de doenças: doenças cardiovasculares, hipertensão, obesidade, diabetes, cancro, esclerose múltipla, etc. Pessoalmente, acho que não existe nenhuma doença que não esteja ligada aos hábitos alimentares e estilo de vida e consequentemente todas beneficiam grandemente e nalguns casos recuperam completamente quando se fazem alterações na alimentação.

Mas é mais fácil as pessoas comprarem medicamentos do que alterarem hábitos enraizados. Não é? Por vezes nem sequer relacionamos certas doenças com aquilo que comemos...

É realmente mais fácil tomar medicamentos do que alterar hábitos e quem o queira fazer está no seu pleno direito. No entanto, os medicamentos têm efeitos secundários (as doenças iatrogénicas são a 3ª causa de morte nos Estados Unidos), são caros e não resolvem verdadeiramente os problemas, apenas aliviam os sintomas. Evidentemente que existem situações onde é necessário tomar medicamentos, mas na minha opinião e observação a maioria dos problemas melhora quando se altera a alimentação e o estilo de vida, mesmo que se decida ou seja necessário ingerir simultaneamente medicação.

Posso honestamente dizer que em todos os casos que vi até hoje, e já vi milhares, as pessoas que fizeram alterações conscientes, sentidas e apropriadas melhoraram praticamente todas. É no entanto importante, que cada um se responsabilize pela sua saúde, tenha um estado de espírito positivo em relação à vida e siga uma alimentação correcta.

(Recordo-me de naquele encontro em Cascais uma Sr.ª vir ter comigo no fim da sessão com imensa pena de não tido oportunidade de dar o seu testemunho, que sofrendo de lúpus beneficiou muito como a mudança alimentar... Será que podia falar um bocadinho da sua experiência como consultor alimentar, exemplificando, se achar conveniente?)

 

Há a ideia generalizada de que não podemos deixar de comer carne e peixe por causa das proteínas e do ferro. Isso faz algum sentido?

FV: Não, não faz qualquer sentido; é perfeitamente possível obter todas as proteínas e ferro necessários sem consumirmos carne ou peixe e sem tampouco sermos especialistas em nutrição. Duma forma geral, com uma alimentação predominantemente vegetariana, mas variada obtém-se proteínas e ferro em quantidades mais do que suficientes.

 

Falando de outro tema ainda mais polémico. Tem alertado que o leite e os lacticínios podem não ser tão saudáveis como se pensa. Porquê?

FV: Em primeiro lugar, porque o leite de vaca é um alimento naturalmente concebido para nutrir um bezerro, não um ser humano. Por estranho que pareça, somos os únicos animais que após desmamados continuamos a beber leite, ainda por cima de uma outra espécie animal.

Também, uma fatia muito grande da população mundial é intolerante à lactose (açúcar do leite), o leite e produtos lácteos têm predominantemente gordura saturada e cada vez existem mais estudos que ligam os lacticínios a muitas das doenças modernas.

 

Afinal, beber 2 copos de leite por dia pode não contribuir para a prevenção de doenças como a osteoporose?

FV: Na realidade, muitos estudos mostram exactamente o contrário. Por exemplo, o ?Nurses Health Study?, um dos maiores estudos epidemiológicos realizados até hoje pela Universidade de Harvard nos Estados Unidos demonstrou o seguinte: em 90.000 enfermeiras cujos hábitos alimentares foram monitorizados durante bastantes anos, aquelas que beberam mais leite e lacticínios foram as que desenvolveram não só mais osteoporose, mas também mais cancro nos ovários.

 

É certo que existem alimentos de origem vegetal ricos em cálcio, mas o nosso organismo consegue absorver bem o cálcio presente nesses alimentos?

FV: Alimentos como os vegetais verdes de rama, algas, peixe, oleaginosas têm quantidades consideráveis de cálcio, nalguns casos, iguais ou superiores aos lacticínios, cálcio esse que é bem absorvido.

No entanto, o mais importante, não parece ser apenas a ingestão de cálcio mas sim a sua fixação. Para que a absorção e fixação sejam adequadas os factores fundamentais são: actividade física, presença suficiente de estrogéneos e testosterona, vitamina D, entre outros.

 

Mas há quem insista que certas substâncias presentes nos vegetais e cereais (como o ácido fítico) podem interferir na absorção do cálcio. Por isso recomendam o leite como sendo a melhor fonte...

FV: Existem evidentemente pontos de vista diferentes, mas os mais recentes estudos parecem não estar muito de acordo com os argumentos utilizados pelos proponentes dos lacticínios. Nestes estudos, o cálcio proveniente de produtos de origem vegetal parece ser mais facilmente absorvido. O ácido fítico (presente nos cereais integrais), pode teoricamente prejudicar a absorção de minerais e oligoelementos (não tanto o cálcio, mas mais o zinco ou o magnésio), mas isso pode acontecer quando se ingere uma quantidade muito grande de farinhas integrais cozinhadas no forno (pão, bolachas duras, biscoitos, etc), em detrimento de cereais integrais em grão como ao arroz, cevada, millet, etc. Também, os cereais integrais como o arroz, quando demolhados antes de cozinhar ?desdobram? o ácido fítico e este deixa de ser um problema. Sabe-se também que em consumidores regulares de alimentos integrais, o organismo se adapta a um maior consumo de fibra e aí a absorção de minerais é adequada.

 

Há um apelo enorme ao consumo de alimentos processados, refinados, açucarados... que estão à nossa disposição por todo o lado. Estes alimentos devem ser evitados, em especial pelas crianças?

FV: Sim, sem dúvida alguma, estes alimentos não trazem quaisquer benefícios a ninguém, excepto às companhias que os produzem. A enorme quantidade de açúcar e alimentos quimicalizados que se consomem actualmente, particularmente as crianças, contribuem decisivamente para muitas das doenças auto-imunes, modernas como asma, alergias, lupus, artrite reumatóide, etc.(pode exemplificar? asma? alergias?), problemas comportamentais e muitos outros.

 

O açúcar causa dependência? Que efeitos nocivos podem ter para além da famosa cárie dentária?

FV: Sim, o açúcar causa dependência, e para a maioria das pessoas é extremamente difícil deixar de comer açúcar. Para além da famosa cárie dentária, o açúcar contribui para a obesidade, desmineraliza enormemente, pode aumentar os níveis de gordura no sangue, enfraquece seriamente o sistema nervoso sendo uma das causas principais de falta de memória? A lista é enorme.

 

Os seus filhos seguem uma alimentação macrobiótica? Alguma vez «protestaram» por não comerem o que os outros meninos comiam...

FV: Duma forma geral, os meus 4 filhos seguem uma alimentação macrobiótica. Digo duma forma geral, porque em situações sociais podem comer açúcar, lacticínios, etc. No entanto, nunca se queixaram por a alimentação em casa ser diferente e compreendem perfeitamente o efeito da alimentação na saúde.

 

Quem não consome alimentos de origem animal, corre o risco de ter carências de alguns nutrientes, nomeadamente de vitamina B12?

FV: Na realidade sim, algumas pessoas (não todas) podem ter deficiência de B12 se nunca comerem produtos animais. Para quem queira ser completamente vegetariano é aconselhável fazer uma análise clínica para saber como estão os níveis de vit. B12; se baixos, tomar um suplemento ou levedura de cerveja, ou comer pequena quantidade de peixe.

 

Acha que as entidades governamentais deviam ter um papel mais activo, no que se refere a recomendações alimentares?

FV: Evidentemente que sim, a saúde pública ganhava enormemente com isso e pouparíamos uma quantidade astronómica de dinheiro ao Ministério da Saúde e à Segurança Social.

 

As pessoas ficam sem saber o que comer com tantas informações contraditórias, ao longo do tempo...

FV: É realmente verdade. Nos tempos modernos, praticamente todas as teorias, por mais opostas e contraditórias que sejam parecem ter fundamento científico, o que deixa as pessoas muito confusas.

O meu conselho a esse respeito é o seguinte: estudem a forma como a Humanidade come há milhares e milhares de anos, não apenas os últimos 50 ou 100 anos. Sem excepção, chegaremos à conclusão de que temos subsistido e evoluído como espécie com uma alimentação baseada em cereais, vegetais, sementes, frutos, e também com o consumo de alguns produtos animais, conforme as culturas.

É também importante usarmos bom senso quando escolhemos o que comer e mantermo-nos informados para podermos separar o trigo do joio.

 


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