ARTIGOS – DIVERSOS

História da Macrobiótica

por Francisco Varatojo

 

A palavra macrobiótica é relativamente bem conhecida em Portugal, mesmo se muitas vezes a interpretação do que esta é ou não é possa ser errónea. Para a vasta maioria das pessoas, a macrobiótica é um sistema alimentar, uma dieta restrita e pouco saborosa que pode ajudar a prevenir doenças ou, nalguns casos, tratá-las.

Na realidade, a macrobiótica é muito mais do que uma simples dieta, é uma filosofia e um estilo de vida que tem como objectivo último ajudar a criar seres humanos mais íntegros, saudáveis e responsáveis e consequentemente uma sociedade mais pacífica e espiritualizada.

A prática alimentar é de suma importância mas não o único factor desta filosofia e, apesar de relativamente simples nos seus princípios alimentares este regime é extraordinariamente versátil, saboroso e saudável.

Nesta série de artigos, tentarei fazer um resumo da história deste movimento ao longo dos tempos; por questões de espaço este resumo será manifestamente incompleto, mas tentarei mencionar as pessoas e factos que me parecem ser mais relevantes.

De filósofos gregos a escritores, historiadores e cientistas muitas pessoas no decurso da história humana professaram princípios quer filosóficos quer alimentares ou de saúde, semelhantes aqueles que actualmente chamamos de macrobiótica.

No entanto, nos tempos modernos a palavra parece ter sido cunhada no séc. XVIII por um médico alemão chamado Christopher Von Hufeland. Von Hufeland foi o médico pessoal de Goethe e em 1796 escreveu o livro ?Macrobiótica ou a Arte de Prolongar a Vida Humana?. Para este médico, que praticou na altura em que viveu uma forma invulgar de medicina, o segredo para uma vida saudável e longa era a cultivação apropriada da ?Força da Vida? e existem inúmeros paralelos entre as recomendações de Von Hufeland e as recomendações macrobióticas dos tempos modernos.

Um século antes no Japão, Ekken Kaibara (1630-1716), um ávido estudioso da natureza e dos princípios éticos e socais escreveu o livro Yojokun, traduzido com o nome Segredos Japoneses para uma Boa Saúde ; para Kaibara a saúde e a felicidade, tal como a doença e a infelicidade são a criação de cada um e algumas das suas muitas observações incluem: ?Cada um tem a vida nas suas mãos?, ?A doença nunca surge sem razão? ou ?As calamidades advém daquilo que dizemos e a doença daquilo que colocamos na boca?.

Kaibara foi não apenas um filósofo mas alguém que verdadeiramente praticou aquilo que ensinou: aos 83 anos ainda tinha todos os dentes e conseguia ler e escrever perfeitamente, sem o uso de óculos.

A macrobiótica na sua vertente moderna, inicia-se no entanto no séc. XIX com um médico japonês, Sagen Ishizuka (1850-1910). Ishizuka foi treinado segundo os melhores princípios médicos da Europa e exerceu medicina como médico do exército até ter contraído uma doença renal incurável. Começou a estudar os clássicos de medicina oriental e curou-se rapidamente mudando de alimentação.

A partir daí começou a fazer experiências consigo mesmo e chegou à conclusão que a alimentação era a causa principal de todas as doenças e de todos os problemas humanos particularmente, segundo ele, o desequilíbrio entre sódio (Na) e potássio (K) no regime alimentar. Ishizuka falava 4 ou 5 idiomas diferentes, estudou exaustivamente quase todas as áreas do conhecimento humano e foi famosíssimo no Japão.

O legado de Sagen Ishizuka é verdadeiramente extraordinário, para alguém que viveu na sua era: conseguiu questionar com sucesso os princípios da medicina alopática e nutrição modernas; criou um sistema eficaz para a edificação de seres humanos mais sãos, sistema esse que era acima de tudo alimentado por um sonho de um mundo de paz.

Ishizuka foi o criador da primeira organização macrobiótica mundial a que deu o nome de Shoku-Yo Kai.

George Ohsawa (1893-1966), de seu verdadeiro nome Yukikazu Sakurazawa, foi a pessoa que assumiu a direcção da Shoku-Yo Kai uns quantos anos após a morte de Ishizuka Sagen e que, mais do que qualquer outro, contribuiu para a expansão da Macrobiótica no Japão, Europa e América.

Ohsawa foi um pensador original, um escritor incansável, orador e activista social e foi ele que, após Von Hufeland, voltou a utilizar o nome macrobiótica quando em 1929 decidiu vir viver para a Europa, com o fim único de tornar a macrobiótica conhecida no Ocidente, particularmente pelos grandes intelectuais da época, de quem ele era um ávido leitor e admirador.

Dotado de um carisma inigualável, George Ohsawa deu milhares de conferências na Europa, particularmente na França e em Bélgica e reuniu um bom número de discípulos como Michio e Aveline Kushi, Herman e Cornelia Aihara, Tomio e Bernardete Kikuchi, Françoise Riviére, Shizuko Yamamoto e muitos outros que, um pouco por todo o Mundo, continuaram o seu trabalho até agora.

Ohsawa foi um verdadeiro activista político que escreveu cartas a quase todas as pessoas mais influentes no Mundo da época como Truman, Einstein ou Estaline, encontrou-se com Albert Schweitzer, médico e prémio Nobel da Paz, no Congo Belga, fez experiências com transmutações químicas e, na minha opinião, contribuiu grandemente para muitas das ideias sobre saúde natural, ecologia e ambiente, equilíbrio social, que hoje aceitamos de mão beijada.

No próximo artigo, continuarei a escrever sobre Ohsawa, Kushi e o desenvolvimento da Macrobiótica até aos dias de hoje.


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